O destino das mudas: a conexão de Rondônia com a energia de Mato Grosso
REPORTAGEM ESPECIAL · PRODUÇÃO, MERCADO E INTEGRAÇÃO
Viveiro de Pimenta Bueno informa enviar quase 90% da produção ao estado vizinho. A procura por eucalipto para energia ajuda a revelar o desafio da silvicultura: ligar cultivo, transporte e compradores.
Quase 90% da produção de mudas do viveiro da Eletrogoes Florestal, em Pimenta Bueno, vai para Mato Grosso. A informação é do engenheiro florestal Alberto Caldeira Filho, gestor do empreendimento, que atribui o aumento da procura à expansão das usinas de etanol de milho no estado vizinho.
O gestor informa que o viveiro comercializa cerca de 6 milhões de mudas por ano. O empreendimento trabalha exclusivamente com eucalipto e tem como foco atender à demanda por biomassa de madeira, usada como fonte de energia em processos industriais, entre eles a secagem de grãos.
“Quem mais procura hoje são as usinas de etanol de milho, especialmente do Mato Grosso.”
Entre os compradores também estão produtores rurais que pretendem plantar para a secagem de grãos ou para comercializar madeira com grandes indústrias. A demanda por mudas, afirma o engenheiro, supera a capacidade atual de produção do viveiro.
A CONEXÃO ENTRE DOIS ESTADOS
O destino das mudas
O mercado de Mato Grosso alcança o viveiro de eucalipto em Pimenta Bueno.
QUASE
90%da produção de mudas do viveiro vai para Mato Grosso, segundo o gestor.
CERCA DE
6 milhõesde mudas comercializadas por ano pelo empreendimento.
Em Rondônia, Alberto aponta a comercialização da madeira como a principal dificuldade da atividade. A procura por mudas traz uma oportunidade, mas o retorno de um plantio depende de decisões que vão até a colheita: quem comprará a madeira, com qual finalidade e a que custo ela chegará ao destino.
O MERCADO PRECISA ENTRAR ANTES DO PLANTIO
O engenheiro florestal Henrique Nery Cipriani, pesquisador da Embrapa Florestas, e a zootecnista Ana Karina Dias Salman, pesquisadora da Embrapa Rondônia, destacam que a escolha de uma espécie vai além de sua adaptação ao solo e ao clima. Nas respostas conjuntas encaminhadas à reportagem, os pesquisadores colocam a existência de mercado entre as condições essenciais do empreendimento.
“O produtor precisa saber para quem venderá, para qual finalidade, em que idade realizará a colheita e quanto custará transportar e processar essa madeira.”
Segundo eles, a distância entre os plantios e os centros consumidores pode elevar o custo da madeira a ponto de inviabilizar sua comercialização. Nos empreendimentos menores, a escala da produção e a proximidade do comprador merecem atenção especial.
Madeira para tratamento, madeira serrada e resina estão entre as possibilidades mencionadas pelos pesquisadores para agregar valor. A escolha depende do produto que se pretende obter, do manejo necessário e de quem poderá comprá-lo.
A TECA RESPONDE PELA MAIOR PARTE DO VALOR
A procura por eucalipto para energia é uma das frentes da silvicultura. Nos dados oficiais de Rondônia, o destaque em valor da produção é a teca. A Pesquisa da Extração Vegetal e da Silvicultura (PEVS), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), registrou R$ 18,626 milhões na silvicultura estadual em 2025. Desse total, R$ 13,678 milhões vieram da madeira em tora de teca para outras finalidades, categoria que exclui o destino para papel e celulose.
A participação corresponde a 73,4% do valor estadual, conforme cálculo do Pimenta Notícias a partir da tabela 291 do SIDRA. Rolim de Moura e São Felipe D'Oeste responderam, juntos, por todo o valor registrado nessa categoria no estado. Em Vilhena, a pesquisa apontou 395 toneladas de resina, avaliadas em R$ 1,716 milhão.
Fonte: IBGE/SIDRA, tabelas 291 e 5930. Valores a preços correntes. Participação da teca calculada pela reportagem e arredondada para uma casa decimal.
| Município | Produto | Valor |
|---|---|---|
| Rolim de Moura | Madeira em tora de teca para outras finalidades | R$ 9.765.000 |
| São Felipe D'Oeste | Madeira em tora de teca para outras finalidades | R$ 3.913.000 |
| Vilhena | Resina · 395 toneladas | R$ 1.716.000 |
Fonte: IBGE/SIDRA, tabela 291, PEVS 2025. Valores dos produtos indicados em cada município.
O valor da produção registra os produtos obtidos no ano, antes de descontar os custos da atividade. A presença da teca nos resultados e a procura por eucalipto para energia mostram que há diferentes mercados dentro da silvicultura, com finalidades que precisam ser consideradas desde o cultivo.
O QUE OS 12.135 HECTARES MOSTRAM
A tabela 5930 do SIDRA registra 12.135 hectares de silvicultura existentes em Rondônia em 31 de dezembro de 2025. São 6.650 hectares de pínus, 5.054 de eucalipto, 45 de teca e 386 na categoria outras espécies.
| Espécie ou grupo | Hectares | Participação |
|---|---|---|
| Pínus | 6.650 | 54,8% |
| Eucalipto | 5.054 | 41,6% |
| Teca | 45 | 0,4% |
| Outras espécies | 386 | 3,2% |
| Total | 12.135 | 100,0% |
Fonte: IBGE/SIDRA, tabela 5930, PEVS 2025. Percentuais calculados pela reportagem, com uma casa decimal.
O Pimenta Notícias consultou o IBGE para esclarecer a leitura do levantamento. Carlos Alfredo B. Guedes, gerente de Agricultura da Coordenação de Agropecuária, informou que os sistemas agrossilvipastoris devem ser contabilizados na PEVS. Ele também explicou que as metodologias da pesquisa e dos levantamentos por imagens são diferentes e não devem ser comparadas diretamente.
Outra mudança ajuda a enxergar a composição da atividade: a partir dos dados de 2025, o IBGE passou a publicar separadamente produtos e áreas de espécies como teca, acácia-negra, mogno-africano e cedro-australiano. A abertura da informação não significa que esses cultivos tenham começado naquele ano.
DA FLORESTA AOS PRODUTOS DO DIA A DIA
A conexão com a indústria aparece também na escala nacional. Em resposta à reportagem, Adriano Scarpa, diretor de Relações Institucionais da Indústria Brasileira de Árvores (Ibá), informou que o país chegou a 10,73 milhões de hectares de árvores cultivadas para fins industriais. Segundo os dados antecipados pela entidade para seu Relatório Anual 2026, o setor registrou, em 2025, R$ 249,4 bilhões em receita bruta, US$ 14,9 bilhões em exportações e 713 mil empregos diretos.
Scarpa relaciona as árvores cultivadas à produção de livros, cadernos, embalagens, papéis sanitários, pisos, painéis e tecidos como a viscose, além de biomassa e energia. Em Pimenta Bueno, o uso energético aparece na procura relatada pelo gestor do viveiro.
A Ibá estima ainda que as empresas do setor conservem 7,15 milhões de hectares de florestas nativas, além da área produtiva. A entidade associa essa conservação ao manejo em mosaico, que intercala áreas produtivas e vegetação nativa.
“O Brasil ainda possui espaço para ampliar sua base florestal de forma sustentável, inclusive em novas fronteiras, desde que existam condições econômicas, ambientais e de infraestrutura para isso.”
Para Rondônia, Scarpa recomenda avaliar as condições de cada território: solo, clima, espécies, produtividade potencial, disponibilidade de áreas regularizadas e infraestrutura de transporte e energia.
ÁRVORES QUE TAMBÉM ENTRAM NA PECUÁRIA
Em Rondônia, uma das possibilidades apontadas pela Embrapa é inserir árvores em áreas já utilizadas pela agropecuária. Na integração pecuária-floresta, o componente florestal divide espaço com a pastagem e os animais. Quando há também lavoura, o sistema é chamado de integração lavoura-pecuária-floresta, ou ILPF.
Segundo Cipriani e Salman, esses arranjos permitem diversificar a produção e associar o cultivo de árvores à recuperação ou à intensificação sustentável das pastagens, sem substituir integralmente a pecuária. As árvores fornecem sombra e podem contribuir para o conforto térmico dos animais. A lavoura, quando presente, pode ajudar a amortizar parte dos custos iniciais de implantação ou de recuperação do pasto.
O planejamento, porém, precisa acomodar as diferentes atividades. Espaçamento e densidade das árvores interferem na entrada de luz para a pastagem, na circulação de máquinas e no conforto animal. A madeira também precisa ter uma finalidade definida: menor volume por área pode ser associado à busca por árvores de melhor qualidade, desde que haja manejo adequado e mercado para esse produto, explicam os pesquisadores.
ALTURA E SOMBRA: FUNÇÕES QUE MUDAM A ESCOLHA
Um estudo apresentado em 2024 ajuda a observar essas diferenças. Em duas áreas de integração pecuária-floresta da Embrapa Rondônia, em Porto Velho, pesquisadores avaliaram eucalipto (Eucalyptus pellita) e bordão-de-velho (Samanea tubulosa). Nas medições realizadas entre abril e junho daquele ano, as alturas médias foram de 19,76 metros e 5,90 metros, respectivamente.
| Espécie | Altura média |
|---|---|
| Eucalipto · Eucalyptus pellita | 19,76 m |
| Bordão-de-velho · Samanea tubulosa | 5,90 m |
Fonte: Cipriani e colaboradores, XIII Congresso Brasileiro de Sistemas Agroflorestais, 2024. Valores médios observados nas condições do experimento.
O bordão-de-velho apresentou 55,74 metros quadrados de projeção média de copa por árvore, característica relevante para o sombreamento. O estudo aponta funções distintas para as espécies e recomenda aprofundar as avaliações em diferentes condições e manejos.
Nas respostas à reportagem, os pesquisadores também mencionam possibilidades para teca, paricá, mogno-africano e outras espécies. A escolha deve considerar adaptação, finalidade e mercado. No caso das nativas, ressaltam a necessidade de ampliar informações sobre materiais genéticos, produção de mudas, crescimento e manejo.
UM NEGÓCIO QUE COMEÇA ANTES DA COLHEITA
O potencial de crescimento das árvores exige cuidados desde a implantação. Fertilidade do solo, chuvas e duração do período seco variam dentro de Rondônia. Por isso, o desempenho de uma espécie ou clone em um local não deve ser generalizado para todo o estado, explicam Cipriani e Salman.
“A implantação inadequada compromete todo o ciclo florestal.”
A orientação dos pesquisadores inclui assistência técnica e decisões adequadas sobre material genético, qualidade das mudas, época de plantio, fertilização, controle de plantas daninhas, pragas e doenças, poda, desbaste e idade de corte.
Em Pimenta Bueno, a procura das usinas ajuda a explicar para onde vão as mudas. A viabilidade da floresta que virá depois exige outras respostas: como conduzir o plantio, que madeira produzir e quanto custará fazê-la chegar ao comprador. O trabalho começa no viveiro, mas o planejamento precisa alcançar a indústria.