As eleições deste domingo, 4 de outubro, deixaram uma resposta interessante para quem acompanhou a entrada de personagens conhecidos principalmente pelas redes sociais na disputa política: viralizar na internet está longe de significar conquistar votos suficientes para um mandato.
A Menina da Bota, o cantor Manoel Gomes, conhecido como Caneta Azul, e Inês Brasil entraram na corrida eleitoral carregando algo que muitos candidatos passam anos tentando conquistar: reconhecimento nacional.
Ainda assim, os três terminaram o domingo sem mandato.
Juntos, somaram pouco mais de 20 mil votos, segundo resultados divulgados durante a totalização deste domingo.
Para quem imaginava que milhões de visualizações, memes e seguidores poderiam abrir automaticamente as portas do Legislativo, as urnas colocaram um freio nessa ideia.
Maria José Mendes da Cruz, conhecida nacionalmente como Menina da Bota, disputou uma cadeira de deputada federal por Minas Gerais pelo União Brasil.
A influenciadora ganhou projeção nacional depois que vídeos cantando e dançando na zona rural viralizaram nas redes sociais. Ela acumulou mais de 1 milhão de seguidores antes de entrar na disputa eleitoral.
Mesmo com toda a exposição, não conseguiu uma cadeira na Câmara dos Deputados.
Durante a reta final da apuração, quando mais de 99% das urnas mineiras já estavam contabilizadas, ela registrava mais de 9,6 mil votos.
Foi a maior votação entre os três nomes, mas ainda insuficiente para garantir uma vaga.
Outro nome que dispensa apresentações para quem passou pelos memes brasileiros dos últimos anos também tentou trocar a internet pelo Congresso Nacional.
Manoel Gomes, eternizado pelo bordão e pela música “Caneta Azul”, disputou uma vaga de deputado federal por São Paulo pelo Avante.
O sucesso musical, porém, não se repetiu nas urnas.
Manoel Gomes recebeu 7.239 votos e não foi eleito deputado federal.
O cantor já havia participado de outra eleição: em 2022, disputou uma cadeira de deputado estadual pelo Maranhão e também não conseguiu se eleger.
Desta vez, nem a mudança de estado nem a enorme exposição acumulada nos últimos anos foram suficientes para transformar notoriedade em mandato.
No Rio de Janeiro, outro fenômeno conhecido da internet viveu experiência semelhante.
Inês Brasil, candidata a deputada estadual pelo PSB, terminou a disputa com 3.145 votos e não conquistou uma das cadeiras da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro.
Esta foi a primeira eleição disputada pela artista, que ganhou projeção nacional a partir de vídeos que viralizaram na internet e se transformou em uma das figuras recorrentes da cultura de memes brasileira.
A fama, mais uma vez, não teve correspondência proporcional dentro da urna.
O resultado dos três candidatos ajuda a derrubar uma impressão que costuma surgir a cada eleição: a de que uma pessoa com milhões de visualizações ou seguidores automaticamente se transforma em uma candidatura eleitoralmente competitiva.
Não funciona necessariamente assim.
Assistir a um vídeo exige alguns segundos. Seguir alguém em uma rede social exige um toque na tela.
Menina da Bota, Caneta Azul e Inês Brasil conseguiram algo extremamente difícil fora da política: tornaram seus nomes conhecidos nacionalmente.
Mas, quando chegou o momento de converter reconhecimento em voto, a distância entre popularidade digital e força eleitoral apareceu.
Talvez essa seja uma das mensagens mais curiosas deixadas pelas eleições de 2026.
Nas redes, um vídeo pode chegar a milhões de pessoas em poucas horas. Um bordão pode se espalhar pelo país. Um personagem pode acumular seguidores muito mais rapidamente do que políticos tradicionais levaram anos para construir suas bases.
Mas a urna segue uma lógica diferente.
Não existe compartilhamento capaz de multiplicar um voto.
Cada eleitor representa um voto, e cada candidatura precisa transformar visibilidade em confiança política suficiente para que alguém digite seu número diante da urna.
Foi justamente nessa transformação que os três fenômenos digitais encontraram seu limite.
Para quem observava com alguma apreensão a possibilidade de que fama instantânea fosse suficiente, por si só, para garantir uma cadeira parlamentar, o resultado deste domingo oferece uma constatação tranquilizadora: