Quando se mudou para Minas Gerais, Jéssica Micaeli Nunes Martins continuou recorrendo à irmã para aprender as receitas que faziam sucesso nos encontros da família. Mesmo à distância, pedia que Antonieli enviasse áudios ensinando a preparar os pratos.
“Até de longe, ela continuava cuidando de mim.”
Hoje, essas pequenas lembranças têm um significado ainda maior. São recordações de uma convivência marcada pelo carinho, pela cumplicidade e pelo cuidado de uma irmã que, nas palavras de Jéssica, sempre encontrava uma maneira de estar presente.
Antonieli Nunes Martins tinha 32 anos, era mãe de uma criança de três anos e estava grávida quando foi assassinada, em 2022, em Pimenta Bueno.
Em março de 2025, o responsável pelo crime foi condenado pelo Tribunal do Júri. A decisão representou uma resposta da Justiça, mas, para a família, a história de Antonieli jamais poderá ser resumida ao crime ou à sentença.
Ao Pimenta Notícias, Jéssica compartilhou lembranças da irmã e falou sobre a saudade, o crescimento do sobrinho Antônio e a importância de preservar a memória de quem Antonieli foi.
A reportagem também traz o depoimento da advogada Débora Cristina Moraes, assistente de acusação no caso, que reflete sobre a responsabilização criminal, a prevenção da violência e as marcas deixadas pelo feminicídio.
Este é o primeiro capítulo de uma série de três reportagens. Nas próximas publicações, as promotoras de Justiça Rafaela Afonso Barreto e Luciana Maria Rocha Ponte Damasceno abordarão aspectos da proteção às mulheres e da atuação do Ministério Público no enfrentamento da violência.
A vida que a família guarda
Quando fala de Antonieli, Jéssica não começa pela violência que interrompeu sua vida. Prefere recordar a irmã alegre, companheira e sempre disposta a ajudar.
“Quando penso na Antonieli, a primeira coisa que me vem à cabeça é o coração enorme que ela tinha. Ela sempre foi uma pessoa muito alegre, companheira e bondosa.”
Segundo Jéssica, Antonieli era uma referência dentro da família. Tomava a frente das situações, ajudava a resolver problemas e fazia o possível para ver todos bem.
Entre tantas lembranças, uma continua especialmente presente: quando era mais nova e queria sair de casa, sua mãe só permitia que fosse acompanhada por Antonieli. A irmã mais velha acabava levando Jéssica para todos os lugares.
Na época, eram situações comuns do cotidiano. Hoje, são lembranças que ela guarda com carinho.
“E hoje vejo o valor desses pequenos momentos… Era o jeitinho dela de demonstrar amor e de cuidar por mim.”
A mesma atenção continuou quando passaram a viver longe uma da outra. Os áudios com receitas, as conversas e os conselhos mantinham a proximidade, mesmo com a distância.
São essas histórias que Jéssica faz questão de contar.
“A história dela não pode ser lembrada somente pela forma como partiu, porque ela foi muito mais do que isso. Ela teve uma vida, teve sonhos, viveu momentos felizes e deixou muitas lembranças lindas em quem teve a oportunidade de conviver com ela.”
A última fotografia
Entre as imagens compartilhadas com a reportagem, uma tem um significado especial para a família.
Nela, Antonieli aparece ao lado de familiares, em um registro simples, feito em um momento de convivência. Segundo Jéssica, aquela foi a última fotografia que tiraram com ela.
Na imagem, ficaram preservados rostos, gestos e a presença de alguém que hoje faz tanta falta.
A fotografia ganhou um valor que ninguém poderia imaginar naquele momento.
Para Jéssica, preservar essas lembranças é também uma maneira de fazer com que a história da irmã continue sendo contada.
E há alguém para quem essas memórias têm uma importância ainda maior: Antônio, filho de Antonieli.
Antônio e as lembranças da mãe
Antônio é uma das maiores alegrias da família e uma razão especial para continuar falando sobre Antonieli.
Ao acompanhar o crescimento do sobrinho, Jéssica reconhece nele características que a fazem recordar a irmã.
“No rostinho dele, nos gestos, no sorriso e em cada nova descoberta, encontramos uma forma de sentir a Antonieli pertinho de nós.”
A família deseja que Antônio cresça conhecendo a história da mãe para além da violência que a vitimou.
Que saiba das brincadeiras, do cuidado com os familiares, das receitas que ela ensinava e da alegria que levava para dentro de casa.
“Queremos que ele cresça sabendo o quanto a mãe dele foi uma pessoa especial, o quanto era amada e o quanto fez diferença na vida de todos nós.”
É também por ele que Jéssica considera tão importante compartilhar essas histórias. São lembranças que ajudam a manter presente a mãe que Antônio perdeu ainda tão pequeno.
Uma perda que a família não imaginava
Ao recordar o período anterior ao feminicídio, Jéssica afirma que os familiares não imaginavam que algo daquela gravidade pudesse acontecer.
Segundo ela, o homem que convivia com Antonieli aparentava tranquilidade diante das pessoas próximas.
“No nosso caso, não tivemos nenhum sinal de que algo assim pudesse acontecer.”
A declaração retrata a percepção da família naquele período e a dimensão do choque provocado pelo crime.
Depois da perda, a saudade passou a fazer parte da rotina. Ela aparece nas datas comemorativas, nas reuniões familiares e, principalmente, em situações simples que antes pareciam não ter tanta importância.
Uma receita, uma mensagem, a vontade de fazer uma ligação ou de ouvir novamente a voz da irmã.
“São coisas que antes pareciam tão simples, mas que hoje têm um valor imenso.”
O julgamento e a resposta da Justiça
Em 24 de março de 2025, o Tribunal do Júri de Pimenta Bueno julgou o caso Antonieli.
Gabriel Henrique Santos Souza foi condenado pelo feminicídio de Antonieli Nunes Martins e pelo crime de aborto provocado sem o consentimento da gestante.
A atuação do Ministério Público na acusação contou com as promotoras de Justiça Rafaela Afonso Barreto e Luciana Maria Rocha Ponte Damasceno. A advogada Débora Cristina Moraes participou do julgamento como assistente de acusação.
Segundo Débora, a pena inicialmente estabelecida em 33 anos e um mês de reclusão foi posteriormente elevada para 34 anos e quatro meses, após embargos apresentados pelo Ministério Público.
A condenação trouxe a responsabilização criminal pelo crime. Mas, como observa a advogada, nenhuma decisão judicial consegue reparar integralmente as consequências de uma vida interrompida.
“Porque, depois de um feminicídio, não existe sentença capaz de devolver uma mãe aos seus filhos, uma filha aos seus pais ou uma mulher à vida que ainda tinha pela frente.”
Para Débora, que possui mais de 14 anos de atuação na advocacia criminal, a responsabilização é necessária, mas o enfrentamento à violência contra a mulher também exige atenção aos sinais de risco e às possibilidades de prevenção.
“A pena é necessária para responsabilizar. Mas a conscientização e a denúncia são fundamentais para que outras mulheres não precisem morrer para que a violência seja percebida.”
A violência nem sempre começa com a agressão física
Ao falar sobre os relacionamentos abusivos de maneira geral, Débora chama a atenção para comportamentos que podem ser confundidos com demonstrações de preocupação ou afeto.
“Muitas vezes, o feminicídio não começa no dia da morte. O ciclo pode começar com o controle, o ciúme excessivo, a humilhação, um grito, uma ameaça, um empurrão ou um tapa.”
Segundo a advogada, reconhecer essas situações é um passo importante para buscar proteção.
Ela também destaca que sair de um relacionamento violento pode envolver dificuldades que nem sempre são compreendidas por quem está de fora.
O medo, a dependência emocional ou financeira, a preocupação com os filhos, a vergonha e a esperança de que o comportamento do agressor mude podem dificultar a busca por ajuda.
Por isso, a rede de apoio e o acolhimento são tão importantes.
Débora também dirige uma reflexão aos homens sobre a necessidade de reconhecer comportamentos violentos e buscar mudanças antes que a situação se agrave.
“Amor não é posse. Ciúme não é cuidado. Controle não é proteção.”
A importância de ouvir sem julgar
Para Jéssica, falar sobre o feminicídio da irmã é doloroso. Ainda assim, ela considera necessário compartilhar sua experiência para que outras mulheres e famílias não enfrentem a mesma realidade.
Sua mensagem às mulheres que vivem situações de violência é de incentivo à busca por ajuda e proteção.
“Nenhuma mulher merece viver com medo, sofrer violência ou perder a própria vida. Vocês merecem ser amadas, respeitadas e viver em segurança.”
Ela também chama a atenção para o papel de familiares e amigos, que podem oferecer apoio, ouvir sem julgamentos e ajudar uma mulher a procurar os serviços de proteção.
Para quem perdeu alguém em circunstâncias semelhantes, Jéssica reconhece que não existe uma maneira simples de superar a ausência.
“A saudade continua, e a gente vai aprendendo a viver com ela, mesmo tendo dias em que dói muito.”
É uma dor que acompanha a família, mas que não apagou as lembranças felizes nem o desejo de manter viva a história de Antonieli.
Muito além da sentença
A história de Antonieli passou pelo Tribunal do Júri e resultou em uma condenação. Mas há uma parte dessa história que não cabe nos documentos do processo.
Está nas fotografias guardadas pela família, nos áudios que Jéssica recebeu da irmã, nas receitas que aprendeu e nas lembranças que pretende compartilhar com Antônio.
Débora espera que o caso também contribua para a conscientização sobre a violência contra a mulher.
“Que o caso Antonieli não seja lembrado apenas pela pena aplicada ao seu agressor, mas como um chamado à consciência: violência não é amor, silêncio não pode ser a única saída e pedir ajuda pode salvar uma vida.”
Para Jéssica, falar da irmã significa preservar tudo aquilo que a violência não conseguiu apagar.
“Vou continuar falando dela, lembrando das nossas histórias e mantendo viva a sua memória, principalmente para o Antônio, que merece conhecer a mãe incrível que teve.”
E é com essa lembrança que ela deseja que Antonieli permaneça na memória das pessoas: não apenas pelo sofrimento causado por sua morte, mas pela mulher que foi e pelo amor que deixou.
“A Antonieli sempre vai fazer parte de mim, da nossa família e da nossa história. E, por mais que a vida tenha nos deixado essa dor tão grande, nada vai apagar o amor que sentimos por ela.”
A última fotografia permanece guardada. Os áudios, as histórias e as lembranças também.
E, enquanto a família continuar contando quem foi Antonieli, seu filho terá a oportunidade de conhecer, por meio dessas memórias, um pouco da mãe que tanto o amava.
Esta é a primeira de três reportagens sobre a memória de Antonieli Nunes Martins e o enfrentamento à violência contra a mulher.
Na próxima reportagem, a promotora de Justiça Rafaela Afonso Barreto abordará os sinais de risco, a busca por proteção e a atuação do Ministério Público na prevenção da violência contra a mulher.
Onde buscar ajuda
190 — Polícia Militar
Em caso de emergência ou risco imediato, ligue 190.
180 — Central de Atendimento à Mulher
Canal gratuito, disponível 24 horas por dia, para orientações sobre direitos, serviços de atendimento e registro de denúncias de violência contra a mulher.
Fontes consultadas
- Jéssica Micaeli Nunes Martins — irmã de Antonieli, em depoimento ao Pimenta Notícias.
- Débora Cristina Moraes — advogada e assistente de acusação, OAB/RO 6.049, em entrevista ao Pimenta Notícias.
- Tribunal de Justiça de Rondônia — notícia sobre o julgamento do caso Antonieli, publicada em 25 de março de 2025. Consultar notícia do TJRO.
- Ministério das Mulheres — informações oficiais sobre o Ligue 180. Orientações do Ligue 180.
- Imagem de abertura: última fotografia da família com Antonieli Nunes Martins, segundo sua irmã Jéssica. Imagem: Acervo familiar.